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Abre as Asas sobre nós

Havia uma garota chamada Bárbara. Talvez ela não fosse exatamente uma garota, mas isso para ela não passava de um detalhe. Um dia, Bárbara foi expulsa da casa dos pais, em Belo Horizonte. Tentou a vida em Palmas, onde aprendeu a se prostituir. De lá, veio de caminhão para São Paulo. Aqui cometeu pequenos roubos e um homicídio: com uma faca, tirou a vida de um homem de terno cinza que se recusou a pagar por seus serviços de travesti. Bárbara foi condenada a cumprir 18 anos de cadeia na penitenciária do Carandiru. Lá ela conheceu e se casou com Xalé, o chefe da faxina do Pavilhão Cinco. Até que um dia surgiu Galega, que se acreditava mais garota que Bárbara desde a operação na Itália, que fez brotar uma vagina onde antes havia um pênis. Foi com esta história em mãos, escrita pelo médico Dráuzio Varella, que o ator e produtor André Fusko me procurou um dia, pedindo para que eu transformasse em teatro a vida de Bárbara.

Assim nasceu a peça Abre as Asas Sobre Nós (foto), uma leitura muito pessoal da vida da Bárbara. Na peça, alterei seu endereço, mudei seus amigos e a presentei com o estranho amor de Paulo Preto. Dirigido por Luiz Valcazaras, o espetáculo Abre as Asas Sobre Nós foi lido como o grito de alguns desesperados em busca de um pouco de liberdade. O ator Emerson Rossini construiu uma Bárbara retraída, uma mulher irônica e escaldada. Rodrigo Gaion fez de sua Galega uma personagem odiosa, movida tanto pela inveja quanto pela falta de um amor. Xalé transformou-se em cafetão no corpo de Walmir Pinto e André Fusko recheou de um lirismo neurótico o seu Paulo Preto. Hoje ganhei o Prêmio Shell de melhor autor de 2006 pelo texto deAbre as Asas Sobre Nós. Não sei se Bárbara, Galega e Xalé sobreviveram aos desafios do Carandiru, não sei se estão soltos ou se ainda pagam por seus delitos. Mas ao lado do diretor Luiz Valcazaras, dos atores André Fusko, Emerson Rossini, Rodrigo Gaion e Walmir Pinto e dos jurados do Prêmio Shell, que na escolha desta noite mostraram o quanto estão atentos à nova cena teatral paulistana, eu gostaria de fazer um agradecimento especial a Barbara, Galega e Xalé, por terem me emprestado os detalhes de suas vidas que me permitiram escrever Abre as Asas. Um dia, eu gostaria que eles vissem o espetáculo e, quem sabe, pudessem me perdoar por possíveis ousadias e liberdades que tomei diante de sua história real. Afinal, a mesma história que os levou para trás das grades deu origem a um espetáculo premiado. Somente na arte tamanha ironia poderia ter um final feliz para um dos lados. Torço, de coração, para que a história real também termine bem para eles algum dia.

http://roveriblog.blogspot.com/2007/03/brbara-e-o-prmio-shell.html

Walmir em cena com o espetáculo “Abre as Asas Sobre Nós” 

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