Artigos

Estou tentando ser humano

“Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto

Expediente protocolado e manifestações de apreço ao sr. diretor

O cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas.”

Estou tentando ser artista; escritor; poeta. Estou tentando enxergar a vida de modo diferente. Estou tentando entender o mundo e achá-lo engraçado. Mas tá difícil. Meu cérebro não aceita as coisas que meu coração sente. Quero preparar a terra e fazer uma canção. Estou traçando meu itinerário, cavando minha trincheira, preparando minha ração.

Quero provar aos homens que a felicidade é possível. Ando contra o vento, como um bêbado errante sem destino. Um delta menos! Risível, frágil, ambulante, batedor de carteiras e de sonhos! Estou na contramão. Salve os errantes estropiados; os cegos sem direção! Salve o Carnaval, a folia, o momo!

“Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbados

O lirismo difícil e pungente dos bêbados

O lirismo dos clows de Shakespeare”

Quero o salto mortal, o trapézio, o risco do equilíbrio no arame. O risco apavora, assusta e amedronta, mas seduz. A incerteza e a indefinição acendem a alma. O outro lado da rua é sempre mais interessante. O labirinto desafia, instiga. A escuridão fascina. Tudo me choca, me provoca e me coloca à prova, me testa. E eu aceito tudo pelo prazer de viver e correr riscos, medos.

Aceito a cachaça, a gordura e o açúcar. Aceito a corda bamba, o vôo, a luta e a porrada. Só não aceito a paralisia, o comodismo, o conformismo, a náusea e o vômito. Estou tentando ser artista, poeta, escritor ou qualquer outra coisa que me sirva. Estou tentando viver, estou tentando ser humano.

Leia Manuel Bandeira, momentos de pura poesia.

Deixe uma resposta

Copyright 2012 .: Walmir Cultura :. | Todos os direitos reservados