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Mostra na Cinemateca homenageia Carlos Reichenbach

A mostra promovida pela Cinemateca a partir desta quarta-feira (23 de janeiro) homenageia um cineasta muito especial – Carlos Reichenbach, o Carlão, morto ano passado. A retrospectiva é bem completa e inclui do primeiro curta do diretor, Esta Rua Tão Augusta (1966), até o seu último longa-metragem, Falsa Loura (2008). Amplo panorama para a compreensão de um artista diferente, que sempre acreditou no cinema independente, aquele que trafega por fora do esquema industrial.

Carlão, como se sabe, filmou na chamada Boca do Lixo paulistana e lá dirigiu alguns dos seus melhores trabalhos. Em um prodígio de contorcionismo criativo, conseguia colocar reflexões políticas em meio a pornochanchadas, e assim viabilizava suas produções, fazendo um cinema de guerrilha e de contrabando. Quer dizer, entre um nu feminino e outro atravessava a alfândega mental dos produtores escondendo ideias de alta voltagem, que não estavam nos planos nem da turma que investia dinheiro dos filmes, bastante pragmática, nem da censura.

A mostra relembra também um Reichenbach mais light, por exemplo naquele que, para muitos, é seu melhor filme – Anjos do Arrabalde, sobre a vida das professoras suburbanas, com Clarisse Abujamra e Bety Faria. Os dramas e as pequenas alegrias das mulheres, contados em tom menor, sensível e delicado. Eis aí um Carlão, àquela época (1986) inesperado.

Mas o filme das professoras revela apenas uma das vertentes fortes da obra de Reichenbach, que dominaria a sua fase final: o fascínio pelo universo feminino, em especial o das mulheres da periferia, das classes trabalhadoras. Alguns dos seus melhores filmes da última fase foram dedicados a elas. Carlão escreveu uma série de projetos, reunidos sob o título geral de ABC – Clube Democrático, do qual apenas dois foram filmados, Garotas do ABC e Falsa Loura, e que visava a um mergulho profundo nesse universo desconhecido pelas classes alta e média.

São filmes que falam das esperanças e dificuldades de moças operárias, que batalham no dia a dia e se divertem no tal Clube Democrático no fim de semana. Namoros, problemas com racismo e com neonazistas do ABC, um flerte com a prostituição, amores desmanchados e desilusões. O cotidiano na fábrica e as conversas sobre namorados no vestiário. Tudo isso em filmes de grande beleza, sobretudo porque Carlão consegue traduzir em linguagem cinematográfica sua visão de mundo, que inclui uma certa dureza mesclada à empatia com as personagens. Nota-se que ama as moças, mas não as trata jamais com pieguice. Garotas do ABC é um belo filme, uma imersão original naquele universo. E Falsa Loura, apesar de alguma irregularidade traz algumas das melhores imagens filmadas pelo diretor.

Mas talvez o melhor Carlão seja mesmo aquele em que seu radicalismo poético, de veio anarquista, se manifesta de maneira mais clara. Por exemplo em Filme Demência (1985), diálogo com Fausto, de Goethe, através da história de um burguês que perde sua fábrica, arruma uma arma e sai a esmo pela cidade em busca de alguma redenção. (Fonte: Estadão)

Local: Cinemateca Brasileira
End: Largo Senador Raul Cardoso, 207 – Vila Mariana
Datas: 22 de janeiro a 17 de fevereiro de 2013
Telefone: 3512-6111 (ramal 215)
São Paulo - SP

$ Preço: R$ 8,00 (inteira) e R$ 4,00 (meia)

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